18h da tarde. Que trânsito! E já estou atrasado.
Correria do inferno... 14 graus da rua, um notebook nas costas e outro na mão. O suor escorre pela testa, apesar do frio intenso. Passos rápidos e firmes me levam ao meu meio de condução egoísta.
Como sair desse trânsito? Preciso chegar em casa. O relógio é apressado e não me dá descanso.
Chego no carro. Rasgo o trânsito, tentando escapar por algum lugar daquele povo que não anda.
Os dedos insistem em colocar no rádio algum “bate-estaca” pra grudar a cabeça em umas 100 batidas por minuto. Claro, porque outra coisa? Precisa ser algo que combine dia e local. E ultimamente em final de semestre, serviço atrasado, estes não tem sido muito calmos.
Motos rasgam os dois lados da Nove de Julho. Ônibus querendo me fechar. Aquele cheiro de óleo diesel queimado, gasolina e álcool... alucinante!
Quanta luz de lanterna na Marginal Pinheiros. Ainda bem que estou conseguindo engatar a terceira marcha, um milagre para o horário. E o relógio... ah, o relógio. Nunca pára.
Já no Morumbi, achando que tudo ia dar certo, um semáforo abre e fecha por duas vezes e não saio do lugar. Um ônibus fecha o cruzamento dos dois lados. Fudeu! Vou ficar aqui uns 20 minutos. E são estes 20 minutos que tenho disponíveis pra chegar em casa. O volume do rádio aumenta.
Mais uma vez, relógio maldito! Os segundos nunca ficam mais longos, muito menos os minutos...
Acho uma escapatória, e consigo passar pela Paraisópolis. É impressionante o local, São Paulo é um organismo vivo num país que possui tanto relógio parado em vastidões imensas.
Chego, 10 minutos antes do horário previsto. O relógio me deu uma trégua, ou eu o venci?
O pior de tudo é acostumar-se com tudo isso, e ainda achar graça. Além da graça, gostar dessa droga. É alucinante viver em São Paulo. Ou você entra no clima, ou cai fora.
Adoro o cheio de fumaça dos carros. Adoro esse trânsito infernal, essa correria que nunca pára. Não pára nem de noite!
São Paulo deve ser bem próximo ao efeito que o LSD causa nas pessoas. E quem disse que a gente precisa passar mal com drogas sintéticas? Que nada, viva e aceite essa doideira em você.
Aliás, o que há de drogas alternativas por aí não está escrito. Quem nunca gostou de cheirar corretivo, por exemplo? Dizem inclusive que o Liquid Paper tinha uma substância muito tóxica... será que é por isso que sou assim hoje???
Estou viciado. Em uma correria sem fim, em algo estressante. O marasmo me enerva, por diversas vezes.
Às vezes penso em tirar o relógio, de desligar o do carro, de esconder o do computador. Ficarei neurótico no ínicio, porém acabarei me acostumando depois.
Será?
quinta-feira, 26 de junho de 2008
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2 comentários:
"A abelha atarefada não tem tempo para a tristeza".
"Energia é o deleite eterno".
Ambas de William Blake, poeta e pintor inglês, que dentre tantas coisas, ilustrou o livro de Jó – aquele, daquela "fábula" em que as pessoas continuam a querer acreditar: A Bíblia... rs – e ilustrou também "A Divina Comédia", do Dante. Morreu pobre, como todo gênio.
Aliás, dá uma olhada no que dizem dele no Wikipedia... tem uma ilustração linda que ele fez do Dante nos portões do Inferno.
E além de pintar bem, ele tinha, sobretudo, razão.
Ter o que fazer nos garante a certeza de ser útil, de ter um lugar no mundo. E isso não é ruim. Pelo contrário: é muito bom. Pior é ter tempo demais e subutilizá-lo: cabeça à toa é terreno fértil para bobagens.
E ter o que fazer numa cidade como São Paulo, plena de energia, é um privilégio. Você não só vive dela, mas, principalmente, desfruta de suas benesses.
Quantas pessoas você conhece que moram aqui e pouco conhecem deste lugar? Quantas pessoas não passam seus finais de semana enfurnadas em casa, com um mundo a ser descoberto do lado de fora e muitas vezes, gratuito?
Não se preocupe muito com a correria: ela faz parte. Ela é, na verdade ferramenta para que possamos aprender a digerir este lugar.
São Paulo é um país inteiro. Muitos países dentro de um cenário cinza e cosmopolita.
E é aí que está a graça da coisa: a energia gerada pelo movimento de ver-se engolido por esta cidade e ter de sobreviver, saindo todos os dias da boca do caos.
Sim: isso vicia. Mais que Liquid Paper...
;-)
Vejo teias de aranha nos cantos deste blog... poeira nas letras... Abandono total...
Tava aqui olhando a data: mais de mês!!
Cadê o "escritô"??
rs.
Já que não tem "escritô", a gente vem dar uma forcinha... rs.
Bj.
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